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27/03/2015 – 16:28  —  Fonte: CRMMG

Saúde mental do médico enfrenta grave crise


 (*) Confira a íntegra da entrevista do Dr. José Raimundo da Silva Lippi concedida ao jornal do CRMMG

 ERRATA: Na edição impressa do Jornal do CRMMG, foi divulgado que a Iª Jornada Brasileira de Sáude Mental dos Médicos foi realizada na Associação Médica de Minas Gerais. O evento ocorreu e foi totalmente patrocinado pelo Hospital Biocor.

Em março e em dezembro de 2014, o psiquiatra José Raimundo da Silva Lippi, CRMMG 4193, coordenou a Iª Jornada Brasileira de Saúde Mental dos Médicos, realizada no Hospital Biocor. De acordo com ele, a saúde mental do médico está sofrendo uma grave crise. O excesso de trabalho, as condições precárias do exercício profissional em muitas unidades hospitalares e de pronto atendimento, entre outros problemas, estão causando muitas perdas, como na autonomia, na remuneração, no estilo de vida e na qualidade da relação entre médico e paciente. As consequências de tudo isso podem resultar em depressão, em dependência química e, em casos extremos, na ideação suicida e no suícidio. "Faz-se necessária uma urgente união entre os órgãos de classe para discussão desse assunto e também para o acolhimento sigiloso aos colegas em crise para que sejam tomadas medidas preventivas e curativas", diz o médico, que também é coordenador da Comissão de Atenção à Sáude Médica da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Confira à íntegra da entrevista concedida ao Jornal do CRMMG.   

 

Jornal do CRMMG - O senhor coordenou a 1ª Jornada Brasileira de Saúde Mental dos Médicos. Quais os temas foram debatidos e quais as principais conclusões?

J. R. S. L.  - Sim. Com muita honra idealizei e planejei este evento. Com a ajuda dos colegas da Academia Mineira de Medicina (AMM) e também, com o apoio de diversas entidades, até mesmo o nosso CRMMG, foi realizada a Jornada de 28 a 30 de março de 2014.  Temas debatidos:  1. Projeção e discussão de um Filme que revela várias patologias na classe médica; 2. Onipotência e Onisciência médica; 3. Saúde mental (SM): conceito e gravidade; 4. SM do médico em geral; 5. SM do psiquiatra; 5. SM psicanalista; 6. Depressão; 7. ideação suicida e suicídio; 8. Dependência química; 9. sociopatias; 10. Terapêuticas especiais; 11. práticas preventivas; 12. A arte como fator de saúde mental; entre outros. A Academia realizou no dia 2/12/14 um Painel, dando continuidade à Jornada, quando se tratou da Saúde Mental:  do Médico, do Médico Idoso e de sua Família.

As principais conclusões da Jornada e do Painel foram:

1.      Conceituação do tema;

2.      A PERDA da Saúde Mental do médico é um tema que exige atenção e cuidados;

3.      Especialistas renomados do Mundo inteiro, até mesmo no Brasil, vêm publicando artigos sobre o assunto;

4.      Existe um "PACTO DE SILÊNCIO" a ser desvendado;

5.      Este grave problema afeta o médico, sua família, o paciente e a Instituição onde trabalha;

6.      Países desenvolvidos cuidam de forma especial do problema;

7.      Entre nós, o Conselho Federal de Medicina fez  publicações;

8.      Faz-se necessária a Mobilização da Classe Médica para tomada de consciência do grave problema;

9.      Faz-se necessária a união dos orgãos de classe para discutir o assunto e propor as medidas cabíveis;

10.  Faz-se necessária a criação de um local - ESPECIAL - para receber os colegas em situação de risco;

11.  Faz-se URGENTE o acolhimento, sigiloso, destes colegas para tomada de medidas preventivas e curativas;

O Curso de Medicina é um dos mais procurados em todos os vestibulares do País? Por que mesmo assim a saúde mental dos médicos está posta em xeque?

 

É verdade que a Medicina é o curso que continua atraindo mais jovens, e NÃO foi posta em xeque a saúde mental dos médicos, como veremos. Existem muitas razões para a escolha e o adoecer do estudante e do médico. Esta profissão continua proporcionando muitas gratificações psicológicas: aliviar a dor e o sofrimento; salvar vidas; prevenir e curar doenças; ensinar, aconselhar, sentir-se útil; ser renconhecido e respeitado; amado por suas condutas éticas e ocupar posição de destaque na sociedade. Estas gratificações são possíveis quando o médico é vocacionado e suas atividades são exercidas com dignidade, pois ele é um ser humano como outro qualquer. O que o distingue é a necessidade de possuir uma íntegra personalidade, um caráter bem formado e habilidades humanísticas que fogem aos padrões usuais.  Por isso, de longa data, a busca pela profissão é uma constante. No final do século 19, inicio do século 20, quando as famílias tinham muitos filhos, uma de suas fantasias era ter um filho médico, outro advogado e um filho que se dedicasse à vida religiosa. A Medicina sempre foi a mais disputada e os melhores alunos, vocacionados, buscavam a nobre missão de salvar vidas. Nos anos 50 do século passado, a profissão do médico era bastante valorizada no Brasil. Era importante ter relações de amizade com estes profissionais, e as famílias tinham como excelente opção de encaminhar bem uma filha na vida, fazê-la casar-se com um deles. O médico era uma opção de casamento bastante valorizada. Casar-se com um deles era uma garantia de saúde, de ter um cônjuge intelectualizado, boas posses financeiras e grande projeção social na comunidade. Essa representação social, e os próprios fatos, foram sofrendo modificações até o final dos anos 90. O início do século 21 nos apresenta uma imagem bem diferente e distante daquela época romântica da medicina.

Como se explicam as mudanças na prática médica e no Imaginário Social?

O desenvolvimento de novos recursos diagnósticos e terapêuticos, a influência da indústria farmacêutica e de equipamentos e a crescente presença das empresas compradoras de serviços medicos são fatores que têm produzido profundas transformações na nossa nobre profissão, modificando a estrutura do exercício profissional. As repercussões são enormes: perda da autonomia, na remuneração, no estilo de vida, na saúde do médico, no comportamento ético do médico e nas relações entre médicos e pacientes.

Mesmo assim, a carreira continua nobre, complexa, e exige um grande esforço para a conquista de uma vaga. Entre as profissões liberais, é uma daquelas que ainda oferecem chances de uma boa qualidade de vida. Apesar da crise que atravessa, a profissão médica oferece a possibilidade de realização material, intelectual e emocional. Toda esta transformação não é discutida e os médicos usam mecanismos de defesa psiquícos, entre eles o processo de NEGAÇÃO para conviver com esta realidade. A jornada foi uma tentativa de romper um imenso tabu, que era a "proibição" de se tocar nestes assuntos, principalmente, o adoecer do médico. O "PACTO DE SILÊNCIO" existente entre ele e seu paciente, com sua família, com seus amigos e com a instituição onde trabalha é um processo negativo nas relações humanas e tem sérias consequências.   

Qual o significado do Pacto de Silêncio?

Não cabe aqui aprofundar as razões, mas podemos tentar esclarecer alguns de seus aspectos: a nova imagem do médico e da médica, os retrata como pessoas com cinco ou seis empregos diferentes, dando plantões semanais, assoberbados (as) de trabalho, sem tempo para a família e para si mesmo (a). Assim, casar-se com um médico (a), ou ser seu filho (a), pode significar viver sem a sua presença, em geral. E isso vale tanto para o cônjuge como para os filhos, familiares e amigos. O tempo dedicado ao estudo e ao trabalho propicia, pelas circunstâncias, maior proximidade entre eles, o que provoca namoros e casamentos, reciclando dificuldades pessoais e profissionais. É significativo o número de divórcios entre casais de médicos. A fantasia de ter um consultório particular em área nobre da cidade ainda é possível para alguns colegas de notório saber. Mas, cada dia, é mais distante e é para poucos profissionais. O mais frequente é o médico trabalhar para convênios e completar o baixo rendimento com plantões extensos.  E, por ser o médico um ser humano como outro qualquer e suas atividades terem características especiais, oberva-se: padecem de estigmas e expectativas sociais. Se, por um lado, podem ser objeto de adoração e reconhecimento por aqueles que gozam imediatamente dos benefícios de suas ações, por outro lado, são cobrados a nunca errar e sempre fazer viver mais, ou ainda, não deixar ninguém morrer, como se estivesse ao alcance deles o próprio dom da vida. A nossa classe  reconhece que a maioria dos médicos são péssimos pacientes e que só procuram ajuda no último caso. Ao mesmo tempo, as famílias silenciam esperando que ele mesmo encontre ajuda nos seus conhecimentos. A sensação de onipotência diante dos pacientes e a vivência de alguns fracassos, muitas vezes, em locais sem nenhuma estrutura para exercer o seu mister, levam médicos a desenvolverem quadros psiquiátricos. Para (Wekstein, 1979), os elevados índices de suicídio encontrados entre os estudantes de medicina e médicos estão relacionados com a perda da onipotência e onisciência idealizadas por muitos aspirantes à carreira médica durante o curso e a vida profissional e a crescente TENSÃO pelo temor de falhar. Este fenômeno revela falta de desenvolvimento emocional e pode-se afirmar que, quanto mais imaturos, mais sofrida será a caminhada destes colegas.  Para tentar "curar" a tensão que isso provoca, muitos se refugiam também na morfina e nos remédios de tarja preta, sem procurar tratamento. Ao mesmo tempo, as Instituições responsáveis nada fazem para minimizar o problema!

Existem outros fatores que explicam a mudança da Representação Social da Medicina e a saúde mental do médico?

R. Sim. É necessário enfatizar a importância de uma boa estrutura emocional do candidato e a chance de frequenter uma Faculdade mais bem organizada, com corpo docente de elevado padrão. Entretanto, isso está comprometido por um fator relevante que ocorre entre nós: é a desastrada e corrupta política para a saúde pública no Brasil. Há cerca de 12 anos, um governo tirânico vem desvalorizando a classe médica e desmerecendo o seu trabalho. O governo federal tem propiciado a criação de inúmeras Faculdades de Medicina, de forma indiscriminada e comercial, pelo Brasil afora. E, com isso, vem impondo um nivelamento por baixo na formação e no atendimento médico. Recentemente, com o politiqueiro programa MAIS MÉDICOS, vem trazendo os assim chamados médicos de pés descalços de Cuba, que fazem um trabalho escravo no Brasil. Está a caminho o MAIS ESPECIALIDADES. O que será da ciência médica brasileira? Soma-se a isso, a questão da abertura de vagas em Universidades Públicas para estudantes despreparados, que entram nas Faculdades de Medicina por um processo que foge à meritocracia. Estes alunos, em pesquisa recente nas unidades da UFMG, têm revelado as piores performances, com as notas mais baixas da turma, existindo raríssimas exceções.  Nem estes fatos derrubaram o prestigio do vestibular de Medicina e a concorrência continua grande. Só que indíviduos mal preparados e de caráter duvidoso têm entrado para as Faculdades corrompendo a prática da profissão. Tem aumentado o número de sociopatas nas Faculdades. Assim compreendendo a situação e sendo Membro da mais elevada Instituição Médica do Estado - ACADEMIA MINEIRA DE MEDINA - não poderíamos deixar de colocar o assunto em pauta!

Como surgiu a ideia da Jornada?

R. Este assunto é antigo e já debatido profundamente nos países desenvolvidos. Tanto assim é que em 1902 o The Journal of American Medical Association (JAMA), criado em 1883 e, em Editorial, chamava a atenção sobre a incidência do Suicídio entre os médicos, apontando que esta preocupação já se manifestara em 1858. A mesma Revista (Center, C. Et al, 2003) chama a atenção para  necessidade e importância da ampla divulgação deste tema entre os médicos. Como vemos nós, estamos muito atrasados. No Brasil, as iniciativas são esparsas e individuais e vêm tentando abordar o tema, onde se estima que de 10% a 12% dos médicos têm ou virão a ter transtornos psiquiátricos ou psicológicos. Além disso, os dados disponíveis sobre a Saúde Mental dos médicos, também entre nós, são inquietantes: alta prevalência de: obesessão/compulsão; sociopatias; ideação suicida; suicídio, depressão, estresse, burnout, toxicomania, divórcios e disfunções profissionais.

Esses fatos, e alguns outros ocorridos entre nós, recentemente, instigaram-me a levar este tema ao conhecimento dos médicos e do grande público: o suicídio de uma estudante de medicina (UFMG), que teve grande repercussão na mídia, até mesmo no facebook; atos desonestos de colegas com repercussão na mídia. Eu fui Tutor na FM-UFMG e convivi com alguns dramas dos nossos estudantes e a necessidade de bem encaminhá-los. Eram poucos os de mau-caráter.

Quais as razões para o Sr. Tomar esta iniciativa?

Embora eu não seja o primeiro, sou um daqueles que se preocupam, há algum tempo, com a saúde mental dos colegas. Entrei para a Faculdade de Medicina para fazer Psiquiatria, com a fantasia de que, sendo especialista, resolveria todos meus problemas emocionais.  Descobri que a solução de conflitos internos exige, além da teoria, um processo terapêutico especializado. Desde estudante busquei ajuda e foi possível observar e ir compreendendo o comportamento de colegas, professores e funcionários. Muitos fugiam dos padrões esperados para uma boa Saúde Mental. Eu dedicava todo o meu tempo ao exercíçio da Psiquiatria. Como Psiquiatra da Infância e Adolescência e Terapeuta Didata de Grupo e Família, venho atendendo, há muitos anos, famílias de colegas. Em nossa Clínica, se os pais não participam do processo de avaliação e terapêutica, a criança e ou o adolescente não serão atendidos. Nesta trajetória, pude perceber a dimensão deste grave problema humano.  Atualmente, eu sou o Coordenador (Lippi, 2014) da Comissão de Atenção à Saúde Mental do Médico, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Hoje, com os conhecimentos adquiridos deste intrigante tema, tem sido possível compartilhar com vários colegas experientes os rumos que devemos seguir para poder criar as melhores condições de acolhimento, prevenção e tratamento dos colegas, suas famílias e das instituições onde eles prestam serviço. A jornada é resultado de todo este esforço.

É possível detectar desde quando se iniciam os problemas emocionais da profissão Médica?

Sim. A passagem do século 20 para o seguinte nos faz pensar nas representações sociais que envolvem o formando do ensino médio, futuro candidato à medicina e o jovem que passou num concurso. A escolha pelo curso médico traz em si uma forte carga afetiva, algumas fantasias que, ao longo do curso e durante a vida profissional, podem não ser realizadas e ser fator de angústia e arrependimento. Desde o Curso médio, os alunos vocacionados vivem sobre tensão. Eu os distingo daqueles que entram na Faculdade para atender a interesses pessoais e escusos e que irão denegrir a imagem da profissão. Estes são, usualmente, sociopatas que planejam o uso da medicina para o exercício de sua patologia. Muitos se revelam desde estudantes. Alguns já entram comprando suas vagas, com o apoio de parentes com transtornos de personalidade. Os vocacionados, repito, têm que estudar muito, pois a disputa é intensa e o sofrimento que isso acarreta é enorme. Tenho atendido muitos estudantes que, embora se dediquem ao estudo, não conseguem ultrapassar as barreiras impostas.  Após preparados emocionalmente e melhor focados, podem entrar numa Faculdade de ponta. O Prof. Sergio Baldassim, membro da nossa Comissão, coordenou a Publicação (Baldassim, 2012) de excelente livro sobre os cuidados a serem oferecidos aos estudantes de Medicina. Existiam e existem muitos estudantes com sofrimentos emocionais que necessitam de atenção especializada!

O Sr. Pode citar exemplos?

Sim. Busquemos alguns, cujo estresse vivido nas Faculdades de Medicina foi muito sofrido, que foram motivo de publicação durante a nossa Jornada: (Evans, 2014) mostra a experiência de uma médica, formada na Faculdade de Medicina da UFMG:   "Estava no quinto período e não tinha tempo para mim. Era como vivesse uma vida que não era a minha. Não tinha lazer, não via filmes nem saia com os amigos. Até para comer, não tinha tempo. Queria ser a melhor da sala. Os meus pais esperavam isso de mim e eu também. Mas um dia, surtei. Quebrei tudo em casa e pensei em me matar. Já pensei isso outras vezes. A Medicina me afoga. Mas é uma escolha. Hoje sou residente e estou melhor". (F.S. de Belo Horizonte). No mesmo dia e caderno, outro relato: "No quinto período, eu desisti da Medicina. Nunca tive nenhuma tendência para depressão, mas quando entrei para o Curso, que era o meu sonho, desenvolvi o transtorno. Não tinha vontade para nada. Não posso culpar a profissão, mas a pressão é grande e a concorrência é ferrenha. Não era para mim". (G.R.E. de Belo Horizonte). (Evans, 2014) cita o exemplo de uma professora de Medicina, que mostra a experiência dela desde estudante: Trata-se de uma Prof. Dra.  docente da Faculdade de Medicina da USP, autora de importantes trabalhos da área. "Minha primeira depressão foi durante o quarto ano de Medicina. Além dela, tenho Transtorno bipolar. Meu quadro já foi tão grave que pensaram no tratamento com eletrochoque. O momento mais crítico foi quando fiquei afastada do Hospital das Clínicas da USP. Já pensei em me matar, mas sempre me cuidei. (....). Tenho terapeuta, tomo os meus remédios e, quando não estou bem, cancelo todos os meus pacientes. Esta médica Madura faz parte também da Comissão da qual eu sou o  coordenador. Professora de importante Faculdade de Medicina, ela se cuida e pode trabalhar com humanismo e eficácia. Na posição que ocupa, participou de nossa jornada e nos estimula a sair do pacto de silêncio. Assim, podemos ajudar os nossos colegas, pois declara que, desde de época de estudante, passou por momentos muito difíceis.

É verdade que muitos residentes estão se queixando de estresse profissional. Por que isso está ocorrendo em uma fase tão prematura da profissão?

 

Sim, é verdade! Mas, não é fase tão prematura! A pressão vivida pelo estudante vocacionado inicia bem cedo como já enfatizei! O Prof. Luiz Antonio (Nogueira-Martins, 2002), outro da nossa Comissão, escreveu um belo trabalho sobre o tema e nele esclarece: "Na Residência Médica, o estresse atinge o seu ápice. O período de transição aluno-médico, a responsabilidade profissional, o isolamento social, a fadiga, a privação do sono, a sobrecarga de trabalho, o pavor de cometer erros e outros fatores inerentes ao treinamento estão associados a diversas expressões psicológicas, psicopatológicas e comportamentais: Elas podem incluir: estados depressivos com ideação suicida, consumo excessivo de álcool, adição a drogas, raiva crônica e o desenvolvimento de um amargo ceticismo e um irônico humor negro. Ele fez um estudo prospectivo (NOGUEIRA-MARTINS, 1994) na Escola Paulista de Medicina com residentes de 12 programas de Residência Médica. Os resultados mostraram que as principais dificuldades encontradas pelos residentes na tarefa assistencial foram: a quantidade de pacientes; a comunicação com pacientes de baixo nível socioeconômico-cultural; pacientes hostis e/ou reivindicadores; pacientes que vêm a falecer; pacientes com alteração de comportamento; as comunicações dolorosas (comunicar ao paciente e/ou à família situações graves ou de morte); os dilemas éticos; o medo de contrair infecções durante a realização de atos médicos. Nesse estudo, as principais fontes de estresse identificadas pelos residentes foram: medo de cometer erros; fadiga, cansaço; falta de orientação; estar constantemente sob pressão; plantão noturno; excessivo controle por parte dos supervisores; lidar com as exigências internas ("ser um médico/aquele que não falha"); falta de tempo para lazer, família, amigos, necessidades pessoais.

Durante o curso, os médicos obtêm grande quantidade de informações sobre prevenção e tratamento de diversas doenças. É verdade que, com isso, ele pode se tornar invulnerável? O que seria a síndrome da invulnerabilidade médica?  

Os médicos, em certas circunstâncias, sentem-se invulneráveis. Existem muitas publicações sobre o assunto.  Eu encontrei, por exemplo, este pensamento esclarecedor de (Meleiro, 1998), a já citada professora da USP:

" O mundo está se tornando mais saudável e a saúde da população se deve ao trabalho dos médicos e ao avanço tecnológico, embora aqueles continuem a trabalhar contra os próprios interesses".

Como explicar este paradoxo? Uma das possiblidades de resposta está no fato de a morte estar sempre presente na vida do médico. Todo o esforço, do estudante realmente vocacionado para a Medicina e depois de formado, exige dele horas de estudo, de preocupação, de ansiedade. Após formado, pelo menos mais 06 a 10 anos para alcançar um conhecimento adequado para o exercício de seu mister. Por isso e outros motivos, não é incomum encontrar colegas ARROGANTES, termo usado aqui não no sentido moral, e sim como mecanismo de defesa do Ego. Muitos usam a arrogância para minimizar sua fragilidade emocional.

No mesmo trabalho de Meleiro, encontra-se a excelente contribuição de (Simon, 1971), que aborda o imaginário da morte na vida dos médicos de uma forma bem criativa:

"O desejo universal de imortalidade faz-nos idealizar um ser onipotente capaz de retardar, deter ou mesmo anular a ameaça de morte."

O Estado de Tensão a que o médico é submetido não tem paralelo. Esses dados e a possibilidade de "vencer" a morte o coloca com sentimentos de onipotência.  "A este ser idealizado Simon chamou de "ser tanatolítico" e, ao conjunto de ações mágicas que lhe são atribuídas, de "complexo tanatolítico".

Entre as motivações para a escolha da profissão da carreira médica, segundo ele, o "complexo tanatolítico" influi fortemente. O perigo a que se expõe o estudante de medicina e, principalmente, o médico no exercício profissional é o de fazer uma identificação total entre seu eu e o "ser tanatolítico", assumindo compromissos onipotentes.

Este fenômeno pode tornar o médico invulnerável e, sendo assim, ele nunca iria adoecer! E, se isso ocorresse, seria capaz de resolver o assunto por ele mesmo. A extenuante rotina de trabalho dos médicos faz com que muitos deles deixem de lado os cuidados com a própria saúde. Eles trabalham muitas horas por dia e têm necessidade de, permanentemente, aprofundar seus conhecimentos. Com o pouco tempo disponível, buscam cursos extras, congressos e, nem sempre sobra tempo para a própria família e para a prática de esportes. Eles, por isso, negligenciam os exames de rotina e até mesmo alimentar-se de forma saudável. Os resultados desse costume podem ser terríveis. O problema é particularmente comum em profissionais que estão no início da profissão. Ao mesmo tempo, lidar diariamente com vários tipos de enfermidades os tornam mais sensíveis a certos transtornos mentais, principalmente aqueles relacionados à tensão (angústia, ansiedade e medo) e à depressão. Em geral, os medicos têm um bom nível intelectual; muitos se realizam profissional e financeiramente, mas grande número deles são emocionalmente IMATUROS. Estes, são os mais vulneráveis!

 O que é a Síndrome da Invulnerabilidade Médica?

 

Esta síndrome se caracteriza pela falsa ideia que alguns médicos têm de que eles seriam imunes às doenças e que os problemas de saúde não os afetariam. Esclareço que esta Síndrome acomete também profissionais de outras áreas. Aprofundemos um pouco essa ideia de invulnerabilidade: a maioria dos leitores já assistiu a Superman, a Batman e a outras películas nas quais um super-herói enfrenta os riscos mais incríveis. Esses seres mitológicos colocam-se ao alcance dos perigos mais devastadores, vencem seus inimigos, sem receber nenhuma ajuda, e nisso reside a função do super-herói: ser imbatível em qualquer circunstância. Embora, conscientemente, eles saibam que as cenas cinematográficas não são reais, muitos deles tratam de imitá-las no dia a dia, no desenvolvimento de atividades produtivas. Nelas, os candidatos a heróis ficam expostos aos perigos, sem tomar as devidas precauções, o que pode desencadear consequências devastadoras. O que motiva consciente ou incoscientemente estas ações? Basicamente, a diferença entre os filmes e a vida real! O resultado desta "confusão" pode ser catástrófico. Muitas pessoas ficam lesionadas ou mesmo morrem em decorrência de atividades de risco. Os exemplos são noticiados, com frequência, entre aqueles que praticam esportes radicais e exercem profissões de elevado risco. A medicina é considerada um profissão de risco. Muitos médicos adoecem e alguns deles morrem em decorrência do descaso no uso de regras preventivas simples. O que se passa na mente das pessoas que creem ser invulneráveis aos perigos do meio? Não é incomum a explicação de que isso teria a ver com um sentimento de descensibilização progressiva diante dos perigos, quando a exposicão a eles é rotineira. Isso vai familiarizando a pessoa com eles, colocando-a num nível de resistência superior. Estas pessoas, então, não adotam as medidas de controle definidas e estudadas, reconhecidas conscientemente, por elas mesmas, como necessárias. Mas, para o seu inconsciente estas regras não são aplicavéis, pois elas é quem sabem mais e conhecem o perigo! A verdade delas supera qualquer estudo técnico, já que é elas que estão diante do perigo o maior tempo. Aqui, se colocam os arrogantes.

Como explicar a onipotência dos médicos?

No clássico Totem e Tabu, (Freud, 1958), o criador da psicanálise examina com rigor os mecanismos do pensamento mágico que seria peculiar aos povos primitivos e às crianças. O princípio fundamental da magia, segundo Freud, é a "onipotência do pensamento" - a ideia de que se pode conseguir qualquer coisa apenas pela força do desejo. Essa concepção corre ao lado do animismo, a doutrina segundo a qual todas as coisas, sejam elas animais, vegetais ou minerais, carregam uma alma. Essas são crenças ancestrais que, sempre de acordo com Freud, persistem na vida moderna "sob a forma degradada da superstição". Está em moda o uso da "Lei da Atração" (O Segredo). Ela cabe perfeitamente no figurino do pensamento mágico. O livro não fala mais em "alma", preferindo termos laicos roubados da física, como "energia" ou "magnetismo" - mas, sob o novo vocabulário, subsiste a ideia de que a realidade física que cerca o homem é dotada de consciência. O livro é insistente nesse ponto: o universo está sempre ouvindo o que as pessoas pensam. E esses pensamentos podem mudar qualquer coisa. São, nos termos de Freud, onipotentes.

Existe Tratamento para a Onipotência?

Muitos médicos buscam em leituras de autoajuda um canal para diminuir o seu sofrimento. No plano da psicologia, a autoajuda pretende ensinar seus leitores a superar traumas, entraves e inibições que os impeçam de chegar à felicidade. Pode ser encarada, nesse sentido, como uma versão barata da psicanálise. "A convocação a tomar uma parte mais ativa na vida, por meio do conhecimento daquilo que nos determina, é uma aspiração socrática que a psicanálise herdou, e que a autoajuda dilui." Outra concepção fundamental da autoajuda é que as pessoas carregam, dentro de si mesmas, forças que atuam em sentido contrário aos seus desejos - mais uma vez trata-se de uma diluição de um conceito fundamental da psicanálise: os mecanismos de defesa. O tratamento, portanto, envolve profissionais bem preparados na área da psicodinâmica, sendo necessário, às vezes, o uso de medicações psicotrópicas.

 

Qual a melhor abordagem para este tema?

Esta Síndrome de invulnerabilidade e onipotência é, em realidade, um problema para a GESTÃO de prevenção de riscos nas Empresas. No nosso caso, as Empresas médicas, que utilizam o trabalho de profissionais e não têm assumido o seu papel de gestores preventivos. Essas Empresas devem criar setores especializados para trabalhar com o inconsciente das pessoas, cujas vivências as fazem sentir-se invulneráveis e isso não se consegue com a GESTÃO TRADICIONAL. Uma nova gestão é exigida para aplicar medidas e atividades que permitam entrar nas emoções dos profissionais. É necessário impactar as pessoas dando-lhes a chance de vivências profundas. Isso irá promover alterações no inconsciente delas, pois não basta dar conselhos, fazer regras, regimentos e punições! É necessário profissionais mais bem preparados para este atendimento. As vivências em grupos, onde se possa exteriorizar o conteúdo de seus conflitos, sem o receio que suas palavras sejam ditas em vão. Por isso, não basta falar em grupo (catarse), é necessário que um terapeuta experiente decodifique as mensagens e ajude a trazer as pessoas para a realidade. O pensamento de que as coisas ruins só acontecem com os outros e as boas conosco é mito e não é construtivo! O perigoso é o excesso de confiança e isso aumenta nossa vulnerabilidade. Por isso, arrogantes são os mais vulneráveis! A arrogância é um mecanismo de defesa que encobre fragilidades. O foco da subjetividade é um espelho distorcionante. A autoconsciência do indíviduo só é uma chama vacilante nos circuitos fechados da sua vida histórica. Ele tem que se compreender como membro de uma comunidade (familia, sociedade e estado) e partícipe de atividades coletivas. Ninguém vive isolado. O responsável por este grupo de pessoas deverá ser o mentor desta gestão preventiva. 

O que a Academia Mineira de Medicina pretende fazer? Haverá continuidade?

 

Sim. Já está programada a realização da 2ª. Jornada Brasileira de Saúde Mental do Médico, que acontecerá nos dias 16 e 17 de outubro deste ano (2015), na Associação Médica de Minas Gerais. Será um evento em parceria com a AMMG e outras Entidades. Além disso, a Academia Mineira de Medicina proporá um programa de Assistência aos colegas medicos em crise e convidará as Entidades responsáveis.

17). Referências Bibliográficas

1. BALDASSIM, S. Atendimento Psicológico aos Estudantes de Medicina: Técnica e Ética. São Paulo: Edipro Edições Profissionais Ltda. 1a. Edição. 2014.

2. CENTER,C; DAVIS M, DETRE,T et al. Confonting depression and suicide in physicians - consensus statement. JAMA, 2003; 289: 3161-3166.

3. EVANS, L. O peso do Jaleco: EMERGÊNCIA (MÉDICOS EM ESTADO GRAVE). Estado de Minas: Caderno Gerais: Saúde 30/03/2014. Pag. 30.

4. EVANS, L. O peso do Jaleco: ALTA RESISTÊNCIA, em buscar ajuda. Estado de Minas: Caderno Gerais: Saúde. 31/03/2014. Pag. 22.

5. FREUD, S.  Totem e Tabu. Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Editora Delta. Vol. VII. 1.958. Pag.363-485.

6. LIPPI, JRS. Coordenador: Comissão de Atenção à Saúde Mental do Médico, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

7. NOGUEIRA-MARTNS, L.A. - Saúde Mental ds Profissionais de Saúde. IN: BOTEGA,  N.J. (Org). Prática Psquiátrica no Hospital Geral: Interconsultas e Emergência.  Porto Alegre, Artmed. 2002. Pags.130-144.

8. NOGUEIRA-MARTINS, L.A.  Residência Médica: Um estudo prospective sobre  dificuldades na tarefa assistencial e fonts de estresse. São Paulo, 1994.Dissertação (Doutorado) - Escola Paulista de Medicina.

9. MELEIRO, AMAS -  Suicídio entre Médicos e Estudantes de Medicina. Rev. Assoc. Med. Bras. Vol. 44, no.2. São Paulo.: apr. jun. 1998.

10. SIMON, R. "O complexo tanatolítico" justificando medidas da psicologia preventiva para estudantes de medicina. Bol Psiq 1971; 4(4): 113-5.

11. WEKSTEIN, L. Handbook of Suicidology. New York: Brunnel?Magel. 1979.

Notícia adicionada por: Edson Braz
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